terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Junior e o seu primeiro tênis DE MARCA (Le Cheval)

Lá pelo final dos anos 80, começou aquela febre por tênis de marca. Todo mundo tinha alguém que trouxe um "Nike" dos EUA... só "eua"  que não tinha. Aí, começou a vender no Brasil, mas pelo olho da cara... meu sonho era ter um "Nike Cross Trainer branco e azul". Ele tinha até duas bolinhas na frente (tipo umas lanterninhas) que brilhavam no escuro. Aquele era meu objetivo de vida.


Todos os dias eu pedia para a minha mãe, mas ela dizia que era muito caro, que não tinha dinheiro prá me dar. Então, peguei todas as minhas revistinhas da Turma da Mônica e fui vender na banca de jornal. Eram todos os exemplares da Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali, desde o primeiro na editora Globo. O dono da banca olhou revistinha por revistinha, contou todas, e deu o preço: *R$15,00 (* não era reais, nem esse valor, mas trazendo pros dias de hoje, seria mais ou menos isso). Achei um absurdo, a minha maravilhosa coleção, com todos os exemplares da turminha, valer só isso? Mas eu já tinha 10 anos, estava entrando para a vida de adulto, não ia precisar das revistinhas... mas precisaria de um TÊNIS DE MARCA. Aquilo me daria vida social...VENDI!

Foi difícil me desfazer delas... na minha mente, elas choravam, enquanto eu ia embora com R$15 reais no bolso. Me senti um sem-vergonha, vendendo as minhas filhinhas indefesas...

Cheguei em casa e disse: "Mmãe, consegui R$15,00. Será que o pai completa pra eu comprar meu tênis de marca?" Ela conversou com ele, que disse que sim. Iríamos no dia seguinte no Brás, comprar.

Aquela noite parece que não acabava. Fiquei tão ansioso, que nem consegui dormir direito.

Já no dia seguinte, fomos bem cedinho no Brás. Chegando na loja de calçados, vi um mais lindo do que o outro na vitrine. De cara, elegi o meu: "Nike Crosstrainer branco e azul". Mas era muito caro. O máximo que o meu pai podia dar, daria prá comprar um outro, de marca, mas mais simples: um LE CHEVAL.

Ah, era bonitão até... robusto, de couro... e era branco e azul, como eu queria. TOPEI. Fui pra casa bem feliz, com o meu Le Cheval, doido prá estrear.

No dia seguinte fui para a escola com ele, contrariando a minha mãe, que disse que era perigoso me roubarem. Mas eu não podia deixar de mostrar o meu "passaporte para a FAMA!".

Todo mundo olhando, apreciando, comentando... e eu abafando no intervalo! Os meninos queriam "estrear" (isto é, pisar nele e sujar), mas eu não deixei. Foi a minha glória!
Cheguei em casa satisfeitíssimo... agora eu era alguém, tinha um tênis de marca...


Fui dormir olhando meu tenis novo, postado bem ao lado da minha cama. No dia seguinte, fui com ele de novo. Só que algo estranho acontecia: todos olhavam e riam... até que alguém gritou: "LIXOVAL!!! kkkkkkk". Ué, não entendi! Eu tava na moda, o que estava acontecendo?

Mais tarde fiquei sabendo que naquele mesmo dia, o tênis Le Cheval tinha caído para a categoria "tênis de baiano" (nada contra quem nasceu na Bahia, mas esse era o termo usado em SP, para designar brega).


Sofri muito. Em apenas dois dias passei do LUXO para o LIXO.
Nunca mais usei aquele tênis. Afinal, acima de tudo, eu tinha dignidade.

VENDO LE CHEVAL NOVÍSSIMO! Pouquíssimo uso, na caixa! R$15,00
Em Piracicaba/SP

9 comentários:

  1. caraaaaaaaaaaaaaalho mt louco...super original ..mano eu peguei sua historia do lixoval e postei ni face....

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  2. Contanto que tenha os devidos créditos, obrigado, Jobert. Grande abraço!!!!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. ainda está vendendo? qual o número?

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  5. Nossaaaa, passei por isso e minha mãe não podia me dar um de marca também, o que difere minha história, foi que a minha mãe me deu um Le Cheval preto e laranja, bem parecido com nike da época, era mega cheguei!

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  6. Eu tive um... E meu nome é Evaldo... Fui chamado de Lechevaldo

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  7. KKKK Fiquei horas tentando achar este texto novamente... muito bom kkkkkk.... ri horrores...

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